A sopa de pipa do Capitão Gancho

Na semana passada foi noticiada a prisão dos donos de um famoso site de compartilhamento de arquivos, apontados como responsáveis por prejuízos de milhões de dólares decorrentes da violação de direitos autorais. Não por acaso, na mesma semana ocorreram manifestações contra o Stop Online Piracy Act  (SOPA) e o Protect IP Act (PIPA), dois projetos de lei norteamericanos antipirataria online, considerados meios para a prática da censura e de abuso de poder. No meio dessa briga estão as produtoras de música, filmes e software, que tentam a todo custo interromper, ou ao menos reduzir, os prejuízos com a troca de arquivos na internet sem o pagamento de direitos autorais.

Sem querer tomar partido de quem quer que seja (até porque os argumentos, se ouvidos isoladamente, acabam seduzindo), vou expressar minha opinião sobre o tema, reafirmando o que escrevi há algum tempo aqui. Lembre-se: é apenas a minha opinião.

Durante muito tempo eu achei que baixar arquivos da internet ou copiar cd´s de software era normal. Primeiro, porque o preço era proibitivo para mim, e se não usasse um sistema operacional pirata certamente não usaria nenhum. É verdade que havia o Linux, uma opção gratuita e aparentemente viável que tentei utilizar, porém sem sucesso, o que me fez continuar com o sistema pirata.

O segundo motivo era a política agressiva da produtora do sistema operacional, que se valia de práticas antiéticas para manter seu monopólio. “Ora, uma empresa assim não merece meu respeito. Além disso, ela já ganha muito dinheiro, e não serei eu o causador de prejuízo. Isso é como uma gota no oceano”, pensava.

O mesmo raciocínio era aplicado aos jogos e, posteriormente, às músicas. Quem não se lembra do Napster e seus similares (e da briga que o Metallica comprou, fazendo esquete no Video Music Awards de 2000)?

Hoje estes argumentos não me convencem. Não me importa quanto lucro teve o fabricante do programa ou a gravadora, ou quão agressiva sejam suas condutas. Se os produtores exploram os funcionários ou artistas é assunto a ser tratado entre eles. Isso não me autoriza a fraudá-los, deixando de pagar os direitos autorais que lhes são devidos. Além disso, para chegar ao resultado final muito dinheiro foi gasto em pesquisas e desenvolvimento, e no caso das músicas, muita inspiração e criatividade.

Pagar o valor do programa ou do arquivo de música é reconhecer o esforço de todos que trabalharam em sua cadeia produtiva e contribuíram para desenvolver um produto que pudesse tornar a minha vida mais prática ou agradável. Logo, nada mais justo que retribuir, pagando o preço cobrado. Se eu considero o preço de um programa alto, tento utilizar um freeware (programa normalmente livre para uso doméstico, ou com pequenas limitações de funcionalidade ou banners de anúncios) que me atenda, ao invés de simplesmente procurar um pirata. Caso a alternativa grátis não me satisfaça, eu espanto os escorpiões da minha carteira e compro o software, ou simplesmente reavalio sua necessidade. No caso da música é mais fácil, ainda mais com a possibilidade de comprar apenas a faixa apreciada: se gosto, compro.

Sem querer por a colher na sopa ou soltar pipa, espero ter ajudado o leitor a refletir sobre o assunto. Sou da geração que viu o mundo antes da internet. Não sei como pensarão os Y, os Alpha, ou seja lá como serão apelidadas as gerações futuras, nem como as discussões de hoje afetarão seus comportamentos, mas quero transmitir aos meus filhos valores sobre ética, trabalho e honestidade. Para isso, preciso praticá-los em todas as áreas, incluindo o modo como encaro o mundo virtual e suas possibilidades.

 

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Um comentário para "A sopa de pipa do Capitão Gancho"

  1. Edeza Rocha 27 de janeiro de 2012 às 5:07 pm 1

    gostei muito, pois temos que dar à Cezar o que é de Cezar.


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